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Produção e venda de panelas de barro ajudam movimentar economia na Raposa

Esta é a quarta matéria da série 'A outra face da Raposa', que o Roraima em Tempo traz ao longo desta semana

Créditos: Winicyus Gonçalves
Panelas de barro são vendidas na comunidade ou em feiras de artesanato em Boa Vista

Fazendo uso apenas das mãos e do conhecimento transmitido ao longo de gerações, as mulheres da comunidade Raposa 1, na reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Normandia, ao Norte de Roraima, moldam o barro e transformam terra em arte.

Esta é a produção da panela de barro que começa no pé das serra e termina na mesa, alimentando filhos e netos e girando a economia na comunidade.

A importância econômica e cultural das panelas de barro é tema da quarta reportagem da série 'A Outra Face da Raposa', que está sendo publicada pelo Roraima em Tempo ao longo desta semana.

Herança cultural desde 1870 na comunidade, a produção das panelas de barro reúne mulheres que fazem parte do Clube de Mães da Raposa. A indígena Joana de Souza produz as panelas há 30 anos. Ela conta que o processo para se fazer as panelas é demorado e requer esforço.

PROCESSO

"Primeiro, o barro deve ser buscado na serra próxima da comunidade. Saímos cedo e gastamos cerca de uma hora pra ir e outra pra voltar. É importante saber que cada panela ou pote precisa de um barro específico, porque se você usa o errado, o artesanato não dá certo", explicou Joana.

Depois de colhido, o barro passa pela secagem e é moído manualmente, com a ajuda de um pilão. Quando seco, o material é peneirado finamente para que nenhum sedimento grosso atrapalhe quando as peças forem feitas. Após ser peneirado, o material é misturado à água e colocado para descansar por duas horas.

Após esse período, a matéria-prima já pode ser manuseada pelas artesãs. O molde é todo feito à mão e deve ser polido com pedra jaspe.  Depois é colocado no fogo, onde o barro é cozido lentamente, para a panela não rachar. Quando prontas, as panelas são trazidas para Boa Vista ou comercializadas na própria comunidade Raposa 1.

Apesar de simples, a fabricação também tem um toque místico. "Meninas menores de 12 anos, mulheres grávidas e aquelas em período menstrual não podem fazer panelas, porque ficam doentes e o artesanato 'não vinga'", contou.

SUSTENTO

A artesã ajuda no sustento toda a família. O trabalho é feito por encomenda e tem cliente que pede até 20 peças de uma só vez. O preço das panelas varia de acordo com o tamanho, de R$ 20 a R$ 130.

Mas para Joana, a importância da produção do artesanato vai muito além do valor cultural e econômico. Tem a ver com o dia a dia e com o próprio sabor das comidas cozidas nas panelas.

"A comida feita na panela de barro, além de ficar pronta mais rapidamente, tem um sabor muito mais gostoso do que teria se fosse preparada na panela de ferro", destacou.

O dinheiro arrecadado com a venda dos artesanatos normalmente é entregue aos artesãos, mas há quem faça panelas exclusivamente para ajudar a comunidade.

"Alguns fazem panelas e arrecadam o valor para que alguns serviços sejam realizados", explica Joana. Durante a entrevista, o serviço de capina estava sendo realizado em algumas áreas da Raposa 1. O trabalho foi pago com dinheiro arrecadado com a venda das panelas.

ECONOMIA LOCAL

A venda de panelas de barro ajuda a dinamizar a economia local, ainda dependente dos salários de servidores públicos e de quem administra pequenos comércios para conseguir se sustentar.

Em outras comunidades da Raposa, os indígenas apostam na criação de gado, que chega a 60 mil cabeças, no plantio de orgânicos e, mais recentemente, na piscicultura. No Surumu, por exemplo, uma das quatro regiões da Raposa, as comunidades, da etnia macuxi, aposta, gado, a principal atividade econômica, além de oferecer produtos locais, como peixe, farinha de mandioca, manga, melancia, banana, pimenta, laranja e caju.

As atividades foram regulamentadas após o Supremo Tribunal Federal (STF) determinar a saída imediata dos produtores de arroz e não índios que ocupam a reserva em 2009. A área da reserva foi demarcada.

FESTA

A produção e venda das panelas de barro é tão importante para os indígenas da Raposa que ganhou até um evento próprio. A sexta edição, da Festa das Panelas de Barro, que será realizada em novembro, quer reunir mulheres, crianças e visitantes de outras comunidades e municípios interessados em adquirir e conhecer as panelas de barro produzidas na região.

Joana explica que, além de sua importância econômica, o evento tem ajudado a não esquecer a arte de fazer a panela de barro. "As novas gerações com as tecnologias podem esquecer a arte, mas com a nossa exposição nestes eventos estamos valorizando nossa cultura. Usamos a panela para nosso uso doméstico, mas as pessoas têm interesse em comprar, por isso hoje é fonte de renda para as nossas famílias", disse Souza.

O segundo tuxaua da comunidade, Jonas Raposo, explicou que o festival tem contribuído com a cultura indígena e a diversidade cultural.

"Esta diversidade tem que ser divulgada para o mundo. O festival também tem servido como alternativa econômica para as comunidades, porque permite a geração de renda. Há outras comunidades de outros lugares participando que trazem seus produtos indígenas para comercialização e isso é importante", comemorou Raposo. 

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